2013: o que observei, entendi e escrevi durante as Jornadas de Junho.

15.05.2020

     

 

     (Texto escrito em agosto de 2013).

    Em uma noite no início de abril de 2013, no quarto dos fundos de uma pensão, no bairro Cidade Baixa, próximo à Avenida João Pessoa, em Porto Alegre, finalizo trabalhos acadêmicos, no prazo e satisfeito com os resultados. Escrevo dois textos que envolvem história, pós-modernidade, política e cinema. Neste momento começam explosões de bombas bem próximo dali. Imediatamente atravesso o antigo casarão e vou para rua, quero ver de perto. Começo uma jornada de semanas intensas pelo interior do movimento de massas que tomou o Brasil a partir daquela noite, com o mote inicial da luta pelo transporte público, em Porto Alegre. Acompanho várias caminhadas noturnas e outras manifestações, presencio bem de perto a ação de grupos distintos, escuto as conversas, destoo do aspecto da maioria de jovens, algumas vezes sou verificado por mascarados, participo de debates, às vezes quase ríspidos, com vizinhos, nas ruas e principalmente, públicos ou fechados, em rede digital. Durante o movimento faço minha mudança, de poucas quadras, para o Centro Histórico de Porto Alegre. Continuo no meio geográfico dos acontecimentos e passo a ter vista parcial para a Praça da Matriz, onde estão as sedes dos Poderes de Estado. Após acompanhar as marchas com dezenas de milhares e presenciar de perto os enfrentamentos, no resto das noites, no terraço, participo de intensos debates via internet tentando interpretar os acontecimentos. Os helicópteros em rasante apontam faróis para as calçadas. Do alto, jogam bombas em repressão a grupos que avançam pela rua, colocando fogo em lixeiras e chutando as portas das casas – algumas noites, pude observar homens jovens bem vestidos, de cabelos curtos, com vandalismo, infligindo o terror nos moradores. Na noite mais violenta tenho a companhia do filho, estreando nossa nova casa. Acompanhamos um trecho da marcha, voltamos cedo, temendo o desfecho violento que se antevia, foi impossível encontrar lugar aberto para comer um bauru. As bombas de gás explodem na frente do prédio, nos certificamos que a grade de ferro do apartamento esteja bem trancada. Entendemos, debatemos e relatamos muito. É nossa maneira de participar. Serão tempos inesquecíveis.

     Iniciando por Porto Alegre, entre abril e julho de 2013, acontece uma das maiores rebeliões populares da história do Brasil. Centenas de milhares, principalmente jovens, vão às ruas, radicalizam os protestos e deixam toda a sociedade em choque. É um movimento novo e diferente, altamente dinâmico, grande e ameaçador, também por isso difícil de entender. As bandeiras e as lideranças até então reconhecidas são superadas. Há novos paradigmas. É preciso assimilar os significados dos acontecimentos. Hoje, passados 60 dias, o movimento arrefeceu, mas talvez tenha ainda desdobramentos: enquanto escrevo esse texto, próximo, escuto sons de manifestações. A seguir, conto e avalio um pouco dessa história.

     Durante várias noites, a área central da cidade é tomada por massas muitas vezes em ações violentas. A repressão policial é dura, em grande escala, com vários casos de abusos e atos ilegais comuns na polícia brasileira (hoje quero saber o destino do Amarildo, desaparecido nas mãos da polícia do Rio de Janeiro).

     O movimento popular e de juventude com feições de século XXI passa a ser visível, mas não surge do nada. Grupos novos de ação política vinham se organizando e já ocupavam espaço junto aos movimentos conhecidos. Há um histórico recente e possivelmente pouco compreendido de ocupações chamadas genericamente de ‘anti-capitalistas’, de manifestações contra o alto preço das passagens, de desfiles impactantes da massa crítica de ciclistas, da renovação das lutas pelo meio ambiente, de lutas contra as remoções entre outros movimentos. São sinais de um processo de acúmulo cujo clímax parece estar nas radicalizações de 2013.

     O país está em um ciclo de crescimento, os modelos de desenvolvimento aceleram a degradação das cidades, o transporte coletivo é caro e insatisfatório, o trânsito vive em colapso, as queixas contra os serviços públicos são generalizadas. As obras da Copa do Mundo de 2014 pioram as coisas: notícias de gastos imensos, remoções e cortes de árvores, transtornos e a impressão de servilismo às vontades da FIFA compõem o ambiente de insatisfações. Há sucessivos escândalos de corrupção, inclusive recentemente nas áreas do licenciamento ambiental. Nesse quadro, o elemento novo e contundente, às vezes assustador, porque massivo e violento, é a juventude, por anos quieta, mas agora mostrando capacidade de indignação e intervenção nos rumos da história. Os manifestantes são muitos milhares, persistentes e combativos, e querem mudanças radicais e rápidas, com o fim da corrupção e melhorias da vida coletiva.

     É em solidariedade aos jovens e na condição de pai, de professor e por ter sido atuante em movimentos de esquerda, durante a ditadura, quando jovem, mas também por interesse enquanto pesquisador, jornalista e cineasta que participo do movimento. Um senso de responsabilidade política me acompanha e a neutralidade me é rara. Às vezes nas marchas estamos com filhos e sobrinhos. Converso com uma estudante do 2º ano do Padre Réus, ela explica, emocionada, que os jovens estão mostrando que podem fazer algo, que podem mudar o mundo, assim como a geração dos pais lutou pelas diretas.

     A mídia não noticia, mas as próprias empresas de comunicação estão entre os principais alvos de críticas, acusadas geralmente de monopolistas e manipuladoras. Assim como ‘inimigos’ são os bancos e também o avanço desenfreado da especulação imobiliária. A cobertura da imprensa tenta direcionar as críticas das ruas apenas para o Governo e para os políticos, o que parece aumentar a ira dos protestos contra si própria. Nas ruas, os protestos contra o Governo são bem menores do que contra a Globo/RBS.

     Encontro e troco idéias com gente experiente, tentamos entender o movimento atual, falamos também sobre os motivos de estarmos ali e sobre até aonde iríamos. Enquanto caminhamos pela João Pessoa, ladeando o parque Farroupilha, rumo à Avenida Ipiranga, concordamos que há riscos de o movimento guinar à direita. Com a maioria, gritamos contra as depredações.

     Em uma das primeiras manifestações, vejo um jovem com o rosto coberto atacar e depredar a fachada da sede de um grande e tradicional partido político. Nessa ação é evidente uma motivação anarquista, pois o alvo é bem definido. Conheço pessoas que estão com o rosto coberto, com motivação revolucionária nessas ações. Mas uma característica do movimento é a confusão ideológica. A falta de entendimento quanto às motivações e causas em luta é grande. Alguns adolescentes vindos dos bairros, à noite, rostos cobertos, querem atacar qualquer órgão ou serviço público, poupando as empresas privadas. Em uma viagem de ônibus, da zona sul ao centro, debato com um jovem vizinho que conheço bem; ele tinha participado da depredação de uma agência do Banco do Brasil. Acho que consigo explicar do equívoco em quebrarem instituições, sobretudo empresas públicas, percebo que esse jovem amigo está influenciado por grupos e ideologias de direita, que agem nas caminhadas. Os próprios grupos de ativistas, conscientemente ou não, em dado momento, aliaram esquerda e direita, enquanto disputavam a direção do movimento. A confusão só possível no ambiente de desinformação pela imprensa em anos promovendo a despolitização e ‘des historização’ dos fatos da sociedade.

     A frente da empresa de comunicação RBS, da Rede Globo, foi o local dos maiores embates com a polícia. Presenciei quatro noites de violência crescente no cruzamento das Avenidas Ipiranga e Erico Verissimo, à margem do Arroio Dilúvio, onde estão o jornal Zero Hora e a Rádio Gaúcha, no limite entre os bairros Cidade Baixa e Menino Deus. Após um dos confrontos, os jovens cheios de adrenalina retornam ao Centro pela Avenida João Pessoa. Ando próximo a um grupo, um se aproxima acelerado, com o rosto coberto, diz alguma coisa e segue correndo, os outros comentam entre si: ‘vão queimar um ônibus! ’, vários reagem gritando: ‘não queima, não quebra! ’, mas percebo um sentimento oposto ao que gritavam: não apenas um desejo de radicalização, mas também um apoio tácito. Sem a massa de dezenas de milhares acompanhando os grupos radicalizados da frente não tomariam coragem para avançar - todos dão força a todos. A massa ganha feições homogêneas. Alguns minutos depois, logo adiante, um ônibus é incendiado. Eu não presencio, porque decido ir para casa, pela Rua Lima e Silva, que é paralela. No caminho, a ampla Avenida Loureiro da Silva, perimetral do Centro, está bloqueada por manifestantes. Há vários grupos espalhados pelas ruas próximas, sem ordem nem acordo. Deixo conflitos para trás, certo de que continuariam, e passo o resto da noite no terraço. Helicópteros em rasante, fachos de luz, as bombas seguem, travamos horas de debates on line. Na rede social denuncio, porque vejo, a ação orquestrada de grupos fascistas infiltrados no movimento.

     Embora seja forte o discurso contra a política e contra as ideologias, nesses dias de 2013 assistimos e fazemos o oposto: intensa ação e debate políticos. Depois de décadas, uma nova onda de politização começa.

     O movimento tinha se tornado mais confuso e radical, com idéias muito diversas misturadas. Em grupos fechados, entre ‘veteranos’, com a maioria dos quais nunca mais havia tido contato, discutimos o apoio, a participação ou não nas manifestações. Alguns acham que o movimento é controlado pela direita, e por isso deve ser combatido. Defendo, com outros, que há nas ruas uma franca disputa e que é necessário participar e disputar.

     Há exatos 30 anos os tanques do exército desfilavam nas Avenidas Borges de Medeiros e Salgado Filho em repressão à greve geral de 1983. Hoje, na marcha de 2013, meu filho e eu passamos por ali, os prédios são altos e sem espaço entre si, as palavras de ordem ecoam.  Acompanhamos por alguns metros um grupo concentrado que grita: ‘ei, reaça, sai da nossa marcha! ’. As facções opostas estão em disputa. Durante um tempo, cada um havia visto o outro como o seu igual, embora depois as diferenças radicais entre as propostas tenham aparecido. Mas houve no início uma aliança cega e fortalecimento mútuo possibilitada em parte pela diluição das causas em um movimento que baixara as bandeiras. Nesse dia, por memória que tenho das passeatas contra a ditadura, espero que ao passar por de baixo do viaduto da Rua Duque as palavras de ordem reverberem. Mas nesse trecho os manifestantes fazem e pedem silêncio, em respeito e cuidado com o Hospital Santa Casa (a geração atual nisso mostra mais educação).

     Dias depois encontro um jovem artista, ex-aluno de cinema, que passa as madrugadas na rua, envolvido nas ações. Ele se preocupa em expressar tudo isso numa arte difícil de conceituar, que mistura literatura, quadrinhos e fotografia. Naquele momento, em que o movimento parece muito confuso, tentamos entender juntos o que ocorre. Baixar as bandeiras é uma armadilha infantil. Sem bandeiras não sabemos quais causas estão sendo defendidas. Nós não acreditamos no fim das ideologias. O anonimato serve aos infiltrados que defendem o oposto do que querem os manifestantes.

     Tenho conversa quase ríspida, virtual, de madrugada, com uma amiga cineasta: eu afirmo que lutamos contra a homofobia faz décadas e que talvez estejam engrossando as fileiras erradas, só então me lembro que ela está na França, e é bem complicado entender, ainda mais de longe, o movimento.

     Resolvo seguir acompanhando, interpretando e relatando. Semanas antes, nas redes sociais, vários tinham desfeito amizades em função de opiniões e anunciaram isso. Avisei e fiz o contrário. Faço questão de manter vínculos bem diversos, com opiniões opostas às minhas. Não é apenas um sinal de tolerância. É para observar mesmo. Vi no feed de notícias, nos primeiros dias, conservadores históricos, até então e por décadas calados, agora mobilizados e engajados em causas opostas às originárias das revoltas na rua.

     Numa livraria, tenho um encontro divertido com um idoso e reacionário conhecido. Sou mais novo uns trinta anos, mas imagino que ele saiba de meu passado na militância de esquerda. Pergunto a esse senhor, com o qual já mantive relações profissionais, se na noite anterior ele estava entre os mascarados, ele entende a ironia e diz que ainda não foi para a rua. Ao fim, peço que me avise se entrar no movimento, para ‘eu alertar o pessoal’. Achamos graça. Com antigos vínculos com ARENA, ele estava de fato entusiasmado com as agitações.

     Não tenho dúvidas, muitos vão às ruas em protesto contra o Governo atual (Dilma Rousseff) assim como teriam lutado a favor dos militares e contra o Governo Jango em 1964. No Brasil, é ainda forte um pensamento colonial, há uma elite inconformada com os aeroportos lotados pelo povo agora com poder aquisitivo, com as quotas nas universidades públicas, com os direitos das domésticas, com a distribuição de renda do bolsa família. Reaparece, em claro movimento, repetindo antigas estratégias historicamente conhecidas, uma direita que raramente mostra a cara. A ação golpista que vejo e denuncio se dá pela infiltração no movimento de rua de grupos orquestrados para aterrorizar a cidade. Várias vezes, vejo jovens, pelo estilo de roupas dando a idéia de vindos da periferia, chegam em grupos de 5 ou 6, quase ao mesmo tempo, portando mochilas, atuando organizados, juntando pedras do chão e partindo para a depredação. Um participante empresário do bairro me relata ter visto um automóvel deixando grupos com esse perfil no centro. Mais de uma vez flagro combinações e comandos entre esses grupos. Nas ruas próximas, residenciais, avançam também os grupos de jovens bem vestidos, garrafas de vodca na mão, queimam as lixeiras, quebram vitrines das lojas, chutam as portas das casas; pelo jeito, esses dão a impressão de saídos dos bairros ricos da cidade.  Ambos grupos vandalizam de forma indiscriminada e sem identidade ideológica com os anarquistas e outros grupos de esquerda, que já estavam em chamada ‘ação direta’, embora todos formem por um tempo uma massa indiferenciada. Simultâneo a isso, a mídia apresenta constantemente matérias sensacionalistas, com imagens armadas, cenas excessivamente bem enquadradas e editadas das depredações, num tom e estilo que quer difundir o medo – conheço bem a edição de uma matéria, afirmo que a imprensa trabalha para construir um ambiente de insegurança. Pelo comércio do centro começa a boataria e nas redes perfis possivelmente fakes falam em derrubar o Governo. O seu ‘Sérgio’, por exemplo: um perfil que usava uma foto de Sérgio Mamberti, com uma fala educada e discurso fascista e golpista que, confrontado, sumiu da rede social. Aliás, alguns amigos nada fakes também passam a adotar um discurso pela volta dos militares e contra a democracia, embora ainda tímidos. Os debates também se intensificam. Para alguns mais assustados, insisto e garanto que o PT não está implantando o comunismo no Brasil. Fico impressionado com a persistência de uma ideologia paranóica, bem antiga. Logo adiante, a diferenciação entre os grupos manifestantes será feita.

     Em várias noites de protesto, quando a marcha se aproxima da sede da RBS (era para onde a revolta quase sempre se dirigia), há o ânimo de depredar. Muitos, como em todas as ocasiões que houve quebradeiras, eram contra os atos de vandalismo, mas foi bem difícil acreditar que a intenção fosse apenas passar na frente da empresa. Em todas as ocasiões, para proteger a sede do Jornal, a polícia dispersa com violência, lança dezenas de bombas, avança com força sobre a multidão. Os confrontos mais violentos se dão na Avenida Ipiranga, à margem sul do Arroio Dilúvio, entre as pontes da Azenha e da Erico Verissimo. Por três vezes, sozinho ou com o filho e amigos, permaneço na margem norte, da onde dá para ver toda a cena à distância segura: a polícia usa lançadores e arremessa bombas de gás sobre a multidão. É muito perigoso porque as bombas vêm pelo alto em direção à massa, que começa a recuar. O gás lacrimogênio atinge a todos. O uso do vinagre, como proteção ao gás, observo, tem valor mais simbólico do que efetivo: estar cheirando a vinagre é ter feito parte, é ter estado na linha de frente. Simbólico também é o choro coletivo provocado. Uma líder, celular numa mão, gesticula forte enquanto grita: ‘permaneçam, não recuem! Nossos companheiros estão lá na frente enfrentando a policia! Precisam de nosso apoio’! As bombas caem mais perto. A rota de fuga nas primeiras noites é pela Av. Erico Verissimo, mas depois com o endurecimento da repressão passa a ser um quarteirão antes, pela Rua Lima e Silva. Numas das últimas noites a policia avança também pela margem norte, com bombas, fechando a fuga para o Centro. Há várias pessoas desmaiadas, a polícia está avançando, paramos para socorrer uma jovem sob o efeito do gás, caída. Escapamos por um acesso à esquerda, um beco que eu nem sabia que existia. Os helicópteros perseguindo pelo alto. No caminho para casa, vemos os grupos se dispersando para diferentes lados, começa mais uma noite de quebradeiras generalizadas que tomamos conhecimento de dentro do apartamento.

     Algumas noites mais tarde, em umas das últimas marchas, acompanhado por um advogado amigo ligado aos sindicatos e pelo meu filho, caminhamos até o Paço Municipal, no início da Avenida Borges de Medeiros, ao lado do Mercado Público, da onde sairia o protesto. Chegamos tarde, já começara faz algum tempo, e nos deparamos com uma multidão notável. Comparo o perfil que enxergo às imagens registradas da Marcha da Família com Deus e pela Propriedade, de 1964. Compreendo que ficam para trás propositadamente, nas caminhadas, para se separarem dos movimentos de esquerda que seguem na frente. Esse grande grupo é formado por gente bem vestida, com cartazes impressos contra a PEC 137 (uma emenda constitucional que limitaria a ação do Ministério Público), um grita ao megafone: ‘nós somos os sem partido’. Nessa noite, a marcha segue pelo lado oposto das outras vezes, não subindo a Borges, mas costeando o Rio Guaíba, pela Avenida Mauá em direção ao sul. Chove fraco, avançamos através da multidão, as feições são muito tensas, todos andam a passo rápido.  Na frente da marcha, compactados, estão os grupos de esquerda, dessa vez com um carro de som. Pela primeira vez também vejo os sindicatos e movimentos sociais mais conhecidos. Mas sempre que ao microfone dos sindicatos é gritada uma palavra de ordem, parte dos manifestantes vaia e pede para cortarem o som. Ficam incomodados com o conteúdo ideológico. Há franca hostilidade, meu filho percebe e me avisa que a briga já está para começar. Escuto um dirigente sindical afirmar que está tudo sobre controle, que o movimento é da esquerda, que não haveria conflito. Tenho certeza que ele está equivocado. Vejo que chegam infiltrados em quantidade bem maior que nas vezes anteriores, às centenas. Deixei os amigos sindicalistas. Quando a marcha retorna para o centro, entrando na Avenida Borges pelo Sul, decidimos não acompanhar. Eu sei que ali é um lugar de embretamento. Segundo noticiado, é a noite de maior violência.

     Gosto quando finalmente a manifestação é marcada fixa para a Praça da Matriz, onde estão os poderes de estado. Subo a Rua Espírito Santo com receio pela violência, mas convencido de que é necessário ser solidário e ajudar os jovens contra a atuação dos fascistas. Encontro vários antigos conhecidos de militâncias passadas. Ali, os opostos ficam lado a lado, se veem, e quase todos puderam testemunhar a ação coordenada da direita. Nessa noite um grande helicóptero sobrevoa a Praça piscando um luminoso escrito ‘SEM PARTIDOS’. A imprensa nunca falará dessa aparição e nunca se saberá quem pagou pelo serviço. Circulo entre os grupos, do modo mais próximo, destoo de ambos. Dois jovens que hostilizam os discursos e apresentações musicais se aproximam e me fazem perguntas sobre o que vai acontecer, que não entendo bem, se olham, parecem concluir que não sou um deles e se afastam (essa é apenas uma e a mais amadora vez que me percebo verificado por infiltrados, pela minha aparência, fui confundido). Escuto quando combinam a ação que segue: se afastam do palanque junto ao Palácio Piratini, se reagrupam no monumento Julio de Castilho e atacam a polícia no lado oposto, à direita do Palácio da Justiça. A repressão é mais uma vez violenta. Mas nesse momento a massa já não é mais homogênea e os infiltrados se percebem isolados. Essa foi a última noite de conflitos.

     O recorte da defesa da democracia e do aprofundamento dos direitos sociais, bem como o antagonismo entre as ideologias em luta fica evidenciado. Dias depois há duas greves gerais marcadas, uma identificada com a direita, cuja convocação ninguém assina; embora haja muitos boatos e ameaças de violência nas ruas do centro, é uma greve esvaziada. Depois, a greve das centrais sindicais é mais forte, quer mostrar e demarcar poder de mobilização dos setores populares de esquerda. O Governo propõe processos de mudanças constitucionais. Alguns amigos bem conservadores ficam assustados (é irônico e absurdo, deve ser o medo de que taxem as grandes fortunas).

     Ao mesmo tempo, o grupo Bloco de Lutas pelo Transporte Público ocupa a Câmara de Vereadores de Porto Alegre em protesto contra o sistema de transporte e contra a falta de transparência das planilhas de custo das passagens. Testemunho por vários dias a organização, seriedade das reuniões e propostas elaboradas durante a ocupação. Debaixo de tantos dreads há muita qualidade.

     Cabe, a essas alturas, perguntar se a revolta ‘teria feito’ vinagre - se teria virado vinagre, azedado. Quero concluir que não. Saio com esperança porque vejo a massa jovem adquirindo consciência e capacidade política. Os que participam, entre eles meu filho e também eu, viveram uma experiência histórica. Não acho que a ameaça conservadora e anti-democrática tenha se desfeito, veja-se o modo como religiões querem impor suas morais aos assuntos de estado. A mídia segue atuando forte para derrubar o Governo. Receiam que prosperem as ações pela democratização e contra os monopólios de comunicação. Ficam evidenciados a urgência de avanços na política e na sociedade, fica evidente também o esvaziamento dos partidos e movimentos tradicionais, ao mesmo tempo em que surgem novas e jovens forças e modos de fazer política. Enfim, a história segue. Ainda bem que estamos nela.

     Eu termino esse relato de forma abrupta, não por ter esgotado o assunto nem os fatos a narrar, mas porque é o tempo que tenho. Há material para um livro, embora possivelmente faça melhor um filme (dando espaço para o maior número de pontos de vista que couber). Por hora, apenas registro fatos e debates, porque foram muitos os interlocutores, e queria fazer uma espécie de fecho. Embora de fechamento esse texto não tenha nada.

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