Arte e indústria, um olhar para o cinema do Rio Grande do Sul

14.02.2016

 

 

Confira abaixo matéria veiculada no Jornal Sul21

 

Neste artigo proponho alguns parâmetros de discussão sobre o cinema feito hoje no Rio Grande do Sul1, que cresce a vista de todos, mas ainda nem tanto.

 

O cinema é um saber empírico. A cada formulação sobre o que é, exceções são lembradas ou imaginadas em filmes feitos ou possíveis, pois a criação artística está no arranjo formal que se faz em cada obra dos elementos expressivos do cinema (da fotografia, arte, som e montagem, usando categoria de Bordwell2) e são potencialmente infinitas as diferentes combinações dos mesmos recursos para construir sentimentos e visões humanas. Assim, há bem poucas afirmações irrefutáveis sobre cinema, uma dessas é que se trata de um binômio arte/indústria unidas, verdade que explica muitas coisas.

 

O sistema de produção em série para consumo em massa – o original se tornando matriz de cópias idênticas – está na origem do cinema, que nasce como indústria cultural do entretenimento3. Assim, cada obra é criação, fruto de um labor artístico e, ao mesmo tempo, resultado de um sistema de produção industrial. Filmes são piores ou melhores se o trabalho de arte é bem ou mal feito e conforme o nível de profissionalismo e organização da produção.

 

Porque as condições materiais são sempre limitadas, às ideias artísticas em cinema correspondem soluções onerosas de produção; essa dificuldade universal ativa a criatividade. Aqui, proponho imaginar o binômio arte/indústria como a síntese de choques, conflitos, entre saberes de tipo muito diferentes (o artístico e o industrial), que fornecem energia de propulsão ao detalhado trabalho de compassar, harmonizar e unificar a orientação dos departamentos (fotografia, arte, som, produção, pós-produção) na construção do filme.

 

No Rio Grande do Sul, nas últimas décadas, o cinema está em franca construção. Lacunas vem sendo superadas, em parte resultado de ações objetivas e estratégicas na construção da indústria (a indústria do audiovisual). Cedo, foi constituída uma base político, institucional e legal. Na produção, num processo que segue, melhoram os roteiros, os métodos de organização, a sustentabilidade dos negócios, a formação profissional e a solidez das empresas produtoras. Se queremos do cinema uma atividade profissional, conclusão lógica e necessária, é preciso fazer o caminho até torná-lo viável (estruturado, remunerado e lucrativo). Inobstante retrocessos pontuais (em tempos de reação conservadora as ameaças crescem), avançamos a passos num ciclo que já dura perto de 40 anos (iniciado com a geração de superoitistas do fim dos 70 – alguns dos pioneiros ainda em plena e destacada atividade).

 

Mas, todavia, os produtos da incipiente indústria de cinema do RGS têm alcançado um lugar muito pequeno no mercado que almeja. Dos filmes feitos, bem poucos se destacam na exibição, crítica ou festivais.

 

A indústria cresce, mas precisa de melhores resultados. Um tema central tem passado ao largo: as pretensões da indústria do audiovisual dependem do valor artístico dos filmes. Fazer filmes é tarefa árdua, fazer bons filmes, muito mais. Não basta a ênfase na construção da indústria (o que vem sendo feito) sem um bom posicionamento quanto à identidade e conceitos artísticos dos produtos oferecidos.

 

Na tensão necessária entre ideia e economia, do binômio arte/indústria, da genética do cinema, a busca por soluções dentro dos limites materiais do filme precisa virar inovação criativa, oxigênio na construção cinematográfica da narrativa.

 

A precoce e falsa naturalização deste conflito basilar ocupa e acomoda os apertados espaços da produção com pouca criatividade. As chances da indústria desaparecem se a produção (o conjunto das esferas e entes, públicos e privados, que atuam na indústria), por algum motivo, não se ater ou aprofundar a arte dos filmes, lançando obras burocráticas, com propostas e conceitos artísticos e narrativos vagos e soltos.

 

Caberia à crítica local, crescida que está, um papel que não faz, nem mostra disposição para isso. Há desconfianças de que grande parte não assiste às produções daqui, quando não manifesta desgosto sem vê-las, e quase nada refere além do já dito e sabido, com raríssimos debates e riscos. São posições confortáveis em circuitos de festivais e jeitos conhecidos. A queixa dos realizadores é antiga. Dou voz, a mim toca.

 

Não há novidade, mas pertinência. Filmes precisam de personagens fortes, em situações dramáticas bem fundadas, construídas através do olhar cinematográfico: não a câmera obediente a manuais, seguindo atores, nem cobrindo falas, mas todos os elementos colocados em cena em função da ideia de cinema, a dizer, a centralidade e a criação no modo de usar a câmera e o som, construindo pontos de vistas sensíveis e verossímeis. Dentro de conceitos de arte de cinema bem constituídos, desde que os limites da produção e os modelos da indústria saibam valorizar o trabalho de criação, as soluções podem se ajustar às realidades materiais e filmes com novo interesse são possíveis.

 

Há qualidades em várias obras do atual ciclo da produção de cinema do Estado. Há novos filmes, com bem-vindas ideias de direção e produção, e conceitos artísticos elaborados.

 

Para concluir falando de filmes que motivam, poucas linhas propositivas de análises sobre produções recentes do Rio Grande do Sul. O último poema (doc., dir. Mirela Kruel, 2015, 70 min.) tem ótimos personagens e história (a amizade por correspondência entre uma professora do interior gaúcho e Carlos Drummond de Andrade); com soluções criativas (Porto Alegre como Rio de Janeiro, por exemplo), tem a pegada da direção na condução do personagem e a ênfase na poesia dos quadros e artes (Val Verba) produzidas. Entre as qualidades de Beira-mar (drama, dir. Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, 2015, 83 min.), no que acertam, os planos longos valorizam o cuidado com o trabalho de atores; um filme jovem sobre jovens em contextos e situações muito bem representados (entre os silêncios do litoral gaúcho no inverno, mostra a relação ambígua de dois amigos). Eu não vou dizer que te amo (drama, dir. Guto Bozzetti, 2015, 108 min.) é um filme de conclusão de curso (Audiovisual ULBRA); o experiente diretor Bozzetti, até agora de animações, e jovens colegas surpreendem num filme maduro, com os menores gastos de produção imagináveis, em planos precisos que amarram bem a narrativa sobre os conflitos de um jovem músico com o pai (a prática em desenhos contribui para a decupagem do diretor, da onde parte todo o trabalho de produção). O maior êxito do período éUm Filme sobre um Bom Fim (doc., dir. Boca Migotto, 2015, 88 min.); produção muito acertada: ótimos arquivos e personagens reais contam a mítica fase do bairro Bom Fim tomada pelos jovens nas noites dos anos 80 de Porto Alegre; na escolha da história e encaminhamento do filme, que atrai grandes públicos, a produção se torna exemplar. Um filme de ideias de cinema e soluções muito bem elaboradas, Castanha (drama/doc., dir. Davi Pretto, 2014, 95 min.) vai além da saturada problematização dos limites entre documentário e ficção (tema já encaminhado com maestria emJogo de Cena, de Eduardo Coutinho, 2007); o longa integra os campos e materiais do documentário e do drama na construção do tempo e espaço especiais do filme, do personagem real/ficcional Castanha (artista trans dos palcos e noites de Porto Alegre).

 

Esses filmes (a lista não é exaustiva), com orçamentos e produções muito acanhadas, fogem da repetição de fórmulas prontas e assumem riscos na cinematografia que procuram. São histórias únicas, com identidades definidas pelos conceitos propostos de cinema e narrativa, assim realizam melhor a síntese arte/indústria. Por motivos diferentes, exemplificam possibilidades de um cinema que, conforme Michael Rabiger, “ativa a imaginação do público, revelando espaços interiores e perguntas que só podem ser respondidas pelo coração e pela mente dos espectadores… uma linguagem cinematográfica que mostra menos para sugerir mais a respeito da ambiguidade dos personagens e dos temas humanos”4.

 

 

 

1 A discussão é antiga, mas evito a qualificação ‘cinema gaúcho’, pelo risco da conotação que carrega: filme que seria campeiro, de bombachas.

2 Sobre os recursos artísticos à disposição do cinema, a análise e os estilos de filmes, em BORDWELL, David et THOMPSON, Kristin. A arte do cinema: uma introdução. Campinas, SP: Editora da Unicamp; São Paulo: Edusp, 2013.

3 A esse respeito, é essencial: BENJAMIN, Walter. A Obra de Arte na época de Sua Reprodutibilidade Técnica.

4 RABIGER, Michel. Direção de cinema, técnicas e estética. Rio de Janeiro, Elsevier, 2007.

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